"Os teus sonhos são Meus
Teus problemas são Meus
Tua vida também
É Minha vida
Eu de ti cuidarei
Nunca te deixarei
Os teus sonhos Eu realizarei
Vou te levar, te conduzir
E quando você alcançar
Saberá que em todo tempo Eu estive ao teu lado"
("Sonhos", álbum Reverência, de Chris Durán)
:Quem é essa garota?:
Priscila, 26, capixaba de olhos negros e riso solto
Concebida em Salvador, mas com alma cosmopolita
Direito no diploma, carreira diplomática na cabeça, concursos para alcançar isso
Paixão por línguas; inglês é bom pro chat, alemão, pro coração
Camarão, pão de queijo com manteiga, mas pizza sem catchup ou mostarda
39 no pé, magra sempre esbelta, loira desde penúltimo março
Piano clássico por dez anos, fotografia nos planos, pintura e cinema nos sonhos
Phil Collins, Bryan Adams, Rod Stewart, Rick Astley e o que mais a agradar
Inteligente, insegura, engraçada e fiel
Temperamental, impulsiva, mal-humorada e melancólica
Melhorar sempre é uma ordem
Deus está sempre ao seu lado
Agradece a você, que faz esse blog mais feliz!
:Status:
Ponto.de.Encontro
"Mais que vencedor eu sou!"
(Rom.8:37)
Quarta-feira, Setembro 28, 2005
Damas e um cavalheiro
Um dia desses encontrei Ian, meu amigo londrino. E pra testar a nova versão do MSN Messenger, ele me convidou pra jogar damas. Foi uma partida emocionantíssima, cheia de lances surpreendentes e inteligentíssimos. Ahã. Saldo: ele, quatro damas, eu, três. E um jogo que não acabava.
Ian, cavalheiro, perguntou: "Quer considerar isso um empate?" Eu disse que não, afinal, ele tinha mais damas que eu, por isso havia ganhado. Ele discordou, e disse que eu havia ganhado. E o que o gentleman inglês fez a seguir? Simplesmente criou oportunidades pra eu destruir suas damas...ah, ainda se fazem cavalheiros como antigamente.
Mas o interessante foi que ele disse: "Eu costumava jogar damas muitas noites com papai". E eu: "Eu também! E ele sempre ganhava!" Ian: "Adivinhe? Papai também..." Eu: "Nós éramos só crianças!" Ian: "Cérebro pequeno...bem, era essa a minha desculpa..." Eu: "A minha também..."
Isso me deu uma sensação meio nostálgica. Ainda lembro duma cena em que eu e meu pai estamos sentados na cama deles, jogando damas. É claro que meu pai fazia umas jogadas em que vários peões meus eram devidamente destruídos e eu ficava uma arara porque não tinha percebido a jogada antes hehehe. E ele tentava me ensinar, me mostrar as jogadas antecipadamente. Tempo legal. Infelizmente, Ian já não tem mais o pai pra jogar com ele, ao contrário de mim. Mas ainda guarda boas lembranças, assim como eu. Assim é a vida :)
Ele ficou com um ar de quem não tinha entendido, e ela se mostrou constrangida. Desde que tinham se conhecido, ela sempre se saía com frases nesse mesmo estilo: "Sua voz é verde-água e tem risquinhos cor-de-abóbora" ou "Esse sorvete tem gosto de som de sinos de catedral antiga". No princípio ele achou estranho, depois resolveu relevar, afinal, gostava dela pacas, mas a coisa foi piorando até o ponto em que ela disse que o beijo dele tinha perfume de sabão em pó barato.
__Que?! Sabão em pó barato??
Ele ficou ofendidíssimo, mas a verdade é que não sabia que ela adorava cheiro de sabão em pó barato. Era louca por esse tipo de perfume, que a fazia lembrar os dias da infância, quando passava as férias na casa do avô. Mas ele nem a deixou explicar e foi embora emburrado, tolo como uma criança pequena. Disse pra si mesmo que iria esquecê-la de qualquer jeito, nem que tivesse que comer sabão em pó. "O que eu estou dizendo, Deus meu? Essa mulher me enlouqueceu ou isso pega...?"
Os dias se passaram e a verdade é que um mês depois ele morria de saudades daquelas frases sem sentido. Foi até a sorveteria e tomou o mesmo sorvete. E achou mesmo que tinha gosto de sons de sino de catedral antiga. Repetiu o próprio nome centenas de vezes até se sentir cheiro de chocolate em cada fonema. Aproveitou pra falar sozinho e comprovar que sua voz não podia ser de outra cor senão verde-água. Com risquinhos cor-de-abóbora. E percebeu que, afinal, gostava muito mais dela do que pensava.
__ Eu também acho - disse ele, com um ramalhete de florezinhas roubadas na mão.
__ Acha o que?
__Que meu nome é verde.
__ Verde-água?
__ Com risquinhos cor-de-abóbora.
__ E também acha que seu beijo tem perfume de sabão em pó barato?
__ Isso só você pode dizer. Pra mim o seu tem som de murmúrio de águas.
__ Você quer comprovar?
__ Só se você me responder...
__ Qualquer coisa.
__ Você gosta mesmo de perfume de sabão em pó barato?
__ Adoro. E você gosta de som de murmúrio de águas?
__ Você sabe que sim...
Um murmúrio de águas com cheiro de sabão em pó barato selou a reconciliação. E quando ela explicou que era sinestésica e por isso misturava os sentidos, e que isso era genético, ele disse que queria ter filhos com nomes que tivessem cheiro de chuva e gosto de bala de hortelã, todos sinestésicos, assim como a mãe.
(A sinestesia é um fenômeno em que as pessoas associam sabores a cores, vêem cheiros ou escutam cores. Esta última, aliás, é a forma mais comum de manifestação da sinestesia. A palavra tem origem na junção dos termos gregos "syn" (junto) e "aisthesis" (percepção) e, portanto, quer dizer junção de sensações. A associação é feita de forma involuntária pelo cérebro. O pintor Wassily Kandinski teria tido esta aptidão: ele cantarolava tons de cores, antes de misturá-los na paleta. Fonte: Deutsche Welle)
Tínhamos acabado de nos mudar para uma casa, e os livros do meu pai ainda estavam na varanda. Eu, dois anos de idade, vestida só de shortinho, meia e bota ortopédica (alguém de vocês também usou isso??), tentava me sentar sobre uma pilha de livros, e conseguindo amparar só um parte do bumbum na pilha, fiquei ali, de perninha dobrada, na pose mais blasé possível. Minha mãe, olhando a cena, resolveu implicar comigo e disparou: "Priscila, Priscila... ah se seu pai te pega sentada em cima dos livros dele..." Meu pai, se me visse sentadinha, não ia fazer nada, ia achar engraçado. Imagino que eu desconfiava de que não existia perigo algum, porque a verdade é que, do alto dos meus dois anos, apenas respondi, ainda na mesma pose e sem olhar pra mamãe:
__ É, bonita? Eu 'télo' é água...
(O título desta série é uma homenagem ao desenho animado O fantástico mundo de Bob, mas eu duvido que Bob já tenha dado tão enigmática resposta alguma vez).
__ Ela tem aquela confiança bela da juventude. Não é arrogante, é apenas confiante. E isso me encanta. Quando começamos a conversar, tive medo de que ela me tomasse por medíocre. Imagine, eu com medo de que alguém me considerasse medíocre! Mas a verdade é nunca encontrei alguém jovem e inteligente como ela. Ela é vibrante, cheia de idéias e sonhos e ideais, e nenhum deles parece ser-lhe inacessível. E ela bem sabe disso.
__ É um prodígio de moça, então?
__ Exatamente! Como eu disse, tive medo de que ela me desprezasse. Eu estive, durante tanto, sentindo-me tão inferior a todos, e tão esquecido de mim mesmo e dos meus talentos, que tive medo do seu desprezo. Qual não foi a minha surpresa ao perceber que essa moça, tão jovem e tão segura, viu em mim esses talentos e os elogiou! Você entende? Encontrei alguém que me devolveu a dignidade e a confiança em mim mesmo! Sinto-me como se fosse um velho pintor decadente que, ao encontrar um jovem aprendiz talentoso e brilhante, começa a relembrar o seu próprio talento e a perceber o quanto de obras maravilhosas ainda pode produzir. Se essa moça não me salvou a vida, ao menos restituiu-me a vontade de viver. Ela é segura de si mesma, isso é terrivelmente belo; ela ainda não sabe aonde quer chegar, mas sabe que, seja lá aonde for, vai conseguir.
__ E ela roubou seu coração?
__ Qual! É muito jovem. É vibrante, forte, decidida, segura. Mas muito jovem. E depois...eu o sei, nós o sabemos...eu já tenho minha eleita.
__ Então...
__ Não há perigo! - concluiu, dando um tapa no ombro do companheiro; e com cúmplices risadas encerraram a conversa.
(Texto inspirado em O Vermelho e o Negro, de Stendhal)
"Se você puder chegar a algum lugar através da neve, da tempestade e da chuva, saberá que também poderá chegar quando brilhar o sol e estiver tudo bem."
E não é que reencontrei a garotinha do bolo de cenoura? Entrei no elevador no térreo e lá estava uma menininha de cabelo arrumado, brilho nos lábios e sombra prateada nos olhos. Debaixo de toda aquela produção reconheci a carinha engraçada da minha interlocutora e perguntei:
__Você é a menina do bolo de cenoura?
Ela pareceu precisar de uns segundos pra se lembrar, ou então ela tem mesmo um jeito meio lento de falar, e respondeu com um simpático 'ahã' sorrindo.
__ Deu certo?
Outro 'ahã' sorrindo - as crianças são muito engraçadas - para então completar, com a mesma ênfase da vez anterior, por um motivo que não descobri qual seria:
__ Minha mãe colocou cinco cenouras!
__ E ficou gostoso?
Aceno positivo de cabeça.
__ Ela colocou cobertura de chocolate?
Outro aceno positivo de cabeça.
__ Ah, então deve ter ficado muito bom! - foi a minha resposta antes de sair do elevador.
Quando cheguei em casa e contei a conversa a minha mãe, ela logo perguntou:
Saindo de casa pra caminhar no calçadão, entrei no elevador que, após descer alguns andares, parou. Alguns segundos mais do que suficientes pra uma pessoa abrir a porta se passaram, até que uma menina, cujo rostinho tinha a expressão de quem fazia força pra mover a porta de aço - o que me fez descobrir a razão dos longos segundos de espera -, apareceu e entrou. Tinha os cabelos lisos e pretos e uma carinha engraçada, e levava um liqüidificador com uma coisa estranha dentro. Com o jeito tímido das crianças de nove anos, perguntou se estava subindo. Eu disse que descia, e perguntei com um ar de curiosidade tímida, olhando pra tal coisa estranha:
__ O que é isso?
Ela tomou certo fôlego, exatamente como fazem algumas crianças, e respondeu bem devagar:
__ É que o liqüidificador lá de casa...
__ Quebrou - completei, impaciente, doida pra saber o fim da história.
__ ... quebrou, e estou levando pra minha vizinha, pra ver se ela ajuda... - e a vozinha foi diminuindo, como se ela tivesse receio de que a vizinha (que, pelo visto, seria a salvação naquele momento) não pudesse ajudar.
Fiquei reparando a coisa estranha, que eu já identificara. A questão agora era saber em que seria usada a tal coisa. O elevador continuou descendo, chegou ao térreo (não parou no andar que ela tinha pedido, sei lá porquê) e então ela resolveu dizer - como se adivinhasse a minha curiosidade - ainda tomando fôlego, e sempre devagar:
__ Minha mãe está tentando fazer um bolo de cenoura....e ela colocou - completou enfaticamente - cinco cenouras!
__ Ah, tomara que dê certo então... - respondi rindo, achando engraçada a ênfase nas cinco cenouras, e imaginando que talvez a mãe tivesse colocado cinco sem saber a receita, ou então que a garotinha imaginasse que cinco cenouras era muito pra se fazer um bolo.
Ela inclinou a cabecinha, sorrindo como se concordasse e eu me despedi. A tal coisa estranha eram cenouras mergulhadas em claras e gemas de ovos. Um bolo de cenoura era o que ia ser feito, até aí tudo bem. O grande problema era o que a mãe da mocinha tinha feito com as cenouras: eram cenouras grandes e grossas, que ela simplesmente dividiu em quatro ou cinco peças e jogou no liqüidificador. Vejam bem: no liqüidificador e não num multi-processador. Está claro que o aparelho não ia conseguir bater aquelas cinco cenouras cortadas naqueles pedaços enormes! Se a vizinha fosse esperta, ia logo perceber que o coitado não estava quebrado, mas sim, não tinha potência suficiente pra bater aquele monstrengo cor-de-abóbora.
E agora estou doida pra encontrar a garotinha de novo e saber o desfecho da saga do bolo de cenoura...que se foi feito realmente com as cinco cenouras, deve ter ficado com um gosto pra lá de forte! :P
Minha mãe está ensaiando uma nova cantata com as crianças. Desta vez, cada música conta uma história da Bíblia, e uma delas (cujo refrão grudento vez por outra é cantarolado aqui em casa), conta a história de Moisés, personagem principal do adorável quadrinho abaixo:
...embora saibamos que o poder pra abrir o Mar Vermelho não estava nele, mas sim no Deus a quem servia :)